Visões, insights, desejos, poemas, desabafos.Um pouco de tudo, mas do fundo da alma, do coração, da intuição, do sentimento.Catarse apenas...
22 de maio de 2009
Ternura antiga:Dolores Duran
Ai, a rua escura, o vento frio
Esta saudade, este vazio
Esta vontade de chorar
Ai, tua distância tão amiga
Esta ternura tão antiga
E o desencanto de esperar
Sim, eu não te amo porque quero
Ah, se eu pudesse esqueceria
Vivo, e vivo só porque te espero
Ai, esta amargura, esta agonia
Cecilia Meireles
Homenagem a Zé Rodrix, falecido hoje: 22/05/09
Casa no campo
Composição: Zé Rodrix e Tavito
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais
Eu quero carneiros e cabras pastando solenes
No meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
Meu filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal
Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros
E nada mais
O lirismo árcade de Zé Rodrix ecoou em minha adolescência, em que cantávamos feito cantiga de roda essa canção.Sou da geração de 60, sempre afeita às rodinhas de violão na escola.Entoávamos essa canção de coração aberto, desejando apenas esse ideal: o de ter uma casa no campo.Tempos cordialmente silenciosos, onde expressávamos em nossas vestimentas un new look hippie.Tempos em que não podíamos discutir em sala de aula política, pois a bedel, parecendo que intuía nossa discussão com a professora de História, vinha nos vigiar por aquelas janelinhas na porta da sala de aula.
E assim entoávamos essa canção, dentre outras de Beto Guedes, Sá e Guarabira, Vandré.
Hoje pulsaram em mim novamente esses momentos, vividos no início da década de 80.
Certamente, o Zé Rodrix não vai se perguntar "E agora, José?",pois acredito que tenha nutrido em si o ideal do "Carpem diem".
Elis tá aí contigo, Zé, e teus amigos já te preparam flores e festa na tua eterna morada, na tua Casa de Campo.
Fernanda Luz
14 de maio de 2009
13 de maio de 2009
Quase

Quase...
Luiz Fernando Veríssimo
Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono. Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance; para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que lanejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.
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